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Chumbinho foi mais longe que Da Silva

De volta ao Brasil após se tornar ídolo na Grécia e surpreso pela competitividade apresentada na A2 após ter disputado até uma Champions League, o meia revelado pelo São Paulo ajudou a conduzir a Inter de Limeira de volta à elite do Paulistão. Sempre, claro, conhecido pelo apelido que lhe tentaram tirar

Chumbinho, 32 years, playing for Inter de Limeira

Giancarlo Giampietro
Em São Paulo

Quando Marinaldo Cícero da Silva nasceu na cidade de Palmares-PE, em 1986, era daquelas crianças que, de imediato, exigia braços fortes de quem se dispusesse a acolhê-lo. “Pesava feito chumbo”, diziam. Foi então desde muito, mas muito cedo mesmo, antes de seu primeiro aniversário, que passou a ser conhecido como Chumbinho.

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É por isso que lhe causou certo espanto quando, 19 anos depois, já defendendo o poderoso São Paulo, membros da diretoria do clube tentaram convencê-lo a deixar o apelido de lado. Seria mais prudente, profissional ou politicamente correto seguir em frente simplesmente como mais um “Da Silva”.

Contrariado, tendo acabado de subir para o profissional, acatou.

“Obedece quem tem juízo”, relembra ao MyCujoo, num desses causos que ganhou seu lugar no folclore do futebol brasileiro. Mas o garoto de então já estava contrariado.

“Se o Chumbinho já havia chegado ao São Paulo, por que não poderia seguir assim?”, detalhando como, aos 14 anos, já tinha jogado uma Copinha (recorde), pelo Atlético Joseense, de São José dos Campos. Na cidade do Vale do Paraíba, por sinal, já “era o responsável” pelas contas de casa, na favela da Rhodia, na Zona Norte do município.

Pois bem. O técnico tricolor Paulo Autuori disse que pouco lhe importava o nome como o jovem seria chamado. Mais valia o futebol apresentado. E com seu apelido o meia foi adiante, com uma carreira que o levou ao exterior por mais de dez temporadas, fazendo história na Grécia, passando por Portugal, Azerbaijão e Japão.

Voltou ao Brasil neste ano. Em campo, o camisa 10, aos 32, ajudou a conduzir a Internacional de Limeira no acesso à elite paulista, da qual estava distante desde o rebaixamento em 2005. Uma eternidade para um clube que já foi campeão paulista em 1986 de modo chocante, batendo o Palmeiras na decisão.

Direto ao ponto

Chumbinho foi um entrevistado de fala bem franca, podemos dizer. Admitiu que, num primeiro momento, não pensava em deixar o futebol europeu, tendo deixado o Levadiakos, clube pelo qual se tornou ídolo. Tampouco supunha que fosse reiniciar sua jornada brasileira em um clube que está na segunda divisão de São Paulo.

Por outro lado, é o primeiro a admitir, com um ponto de vista de quem já disputou a Liga dos Campeões e a Liga Europa, que a A2 não é uma Segundona qualquer. No universo dos estaduais brasileiros, é um ponto fora da curva devido a sua competitividade.

Chumbinho, 32 years old, who used to play in Europe, is having a great season with Inter de Limeira in Brazil

“É um equilíbrio muito grande, com bons jogadores, muitos preparados para jogar a primeira do Brasileiro. Agora, participando, posso bater o martelo e dizer que é um campeonato dos mais fortes”, disse.

“Para mim está sendo algo novo até, depois de tanto tempo fora. A gente faz um plano, mas Deus vem e faz outros. Essa porta foi aberta, e poderia ser aparentemente pequena para o olho mais distante, mas que está se tornando grande para nós jogadores da Inter.”

A espera

A Inter de Limeira assegurou sua vaga nos mata-matas da A2 com a sétima posição. Foi aí que se tornou uma das provas da competitividade do evento, eliminando a elogiada Portuguesa Santista de Sérgio Guedes pelas quartas de final (empate por 2 a 2 fora e vitória por 2 a 0 em seu estádio).

A cidade entrou em polvorosa. O clima ficou ainda mais eufórico quando a chave dos mata-matas pôs a Inter em conflito com o XV de Piracicaba, um de seus principais rivais. A fundação dos clubes tem um intervalo de apenas 40 dias, e a distância entre as cidades é de apenas 30 quilômetros.

Chumbinho is back in Paulista A2 in Brazil, playing for Internacional de Limeira

Na primeira partida em Limeira, empate por 0 a 0. Na volta em Piracicaba, um jogo histórico: a Inter buscou um empate por 2 a 2 já nos acréscimos do segundo tempo, forçando a cobrança de pênaltis. “Ficou tudo bem agitado. Era uma espera já de 14 anos pelo acesso.A esperança era bem grande, já que o time cresceu na hora certa”, disse.

Falando grego

O retorno à Primeira Divisão já deixaria o nome de Chumbinho marcado na história da Inter, ao lado de seus companheiros. O time agora enfrenta o Santo André na busca pelo título da A2. Seria mais uma memória gratificante para o veterano. Mas, em sua trajetória, fica difícil concorrer com o que viveu e aprendeu na Grécia.

Chumbinho desembarcou em solo helênico em 2009, saindo do Leixões, de Portugal. Agora de volta ao Brasil, arrisca suas frases na língua deles e afirma que sua mulher até pensa em fazer de lá sua casa, quando a carreira chegar ao fim. Vendo assim, parece que foi tudo muito tranquilo, certo? O talento do meia de fato facilitou as coisas. Mas o início num lugar de língua e cultura tão diferente obviamente apresentou seus desafios.

“Mal sabia contar até dez em inglês, então imagine em grego?”, afirmou, rindo. “Até me lembro de uma vez em que fui a um restaurante, e a atendente me perguntava se eu queria chicken (frango, em inglês). Nem isso eu sabia o que era. Naquela conversa sem ninguém entender, até fiz o ‘muuuuuuu’, imitando uma vaca. Ela deu risada. Depois escreveu o que estava sugerindo. Procurei no Google, e aí descobri o que era.”

Poucos anos depois do episódio, já estava concorrendo com os atacantes Kevin Mirallas, da Bélgica, e Sebastián Leto, da Argentina, ao prêmio de melhor do Campeonato Grego.

“Pelo meu jeito humilde de ser, acabei conquistando muitas pessoas na Grécia. Se chegar lá hoje, sou muito bem recebido. Tenho certeza de que chegaria lá empregado”, disse. “Virou minha segunda pátria.”

Ah, e claro, não nos esqueçamos: também pelos gregos ele era conhecido como Chumbinho. Ou “Chumbe”, como gritavam os torcedores na arquibancada. Realmente não havia como largar o apelido. Ufa!

“O povo está tirando até isso dos jogadores. Além de tirar o talento natural dos meninos, até o nome querem tirar. Que isso tem a ver com futebol? Por isso que está uma decadência”, disse. “Rapaz, na minha época, para chegar num time da sua cidade, tinha de ser bom, diferenciado. Quanto mais num São Paulo. Hoje vai muito por físico, biótipo, ver quem corre mais. Se fosse assim, que pegasse um maratonista”, desabafou.

Em termos de maratona, convenhamos, o Chumbinho foi muito que Da Silva.

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