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Uma noite sem fim para a Portuguesa

Vivendo o pior momento de sua história, o clube ao menos pode comemorar por ora a campanha de seus garotos pela Copinha, com classificação aos mata-matas antecipada, ainda atraindo saudosistas e resignados torcedores ao Canindé

Fans of Portuguesa Santista at Copinha 2019

Giancarlo Giampietro
Em São Paulo

O Volta Redonda dava bastante trabalho à Portuguesa no Canindé, pela segunda rodada do Grupo 32 da Copinha. No primeiro tempo, praticamente mandou no jogo, com forte defesa e um jogo seguro na troca de passes.

Para uma torcida que já sofreu um bocado nos últimos anos, testemunhando um longo e dolorido processo de ruína de um os clubes mais tradicionais de São Paulo – e do país –, não era necessariamente uma surpresa. Ainda assim, o clima no estádio, com bom público para uma noite de segunda-feira, ainda era de otimismo. No coletivo, não havia cornetas, resmungos ou vaia. Era como se o que acontecia em campo não importasse, mesmo.

Porém, uma vez que você se acomoda na arquibancada e começa a puxar conversa com os lusos individualmente, não demora nem um minuto para que uma combinação de frustração, resignação e saudosismo se manifeste.

Os torcedores estão lá pela paixão, pelo costume, mas nem precisam ser muito céticos para saberem que, na abertura da temporada 2019 do futebol brasileiro, não é muito prudente se empolgar com a Portuguesa.

De todo modo, os garotos do sub-20 ao menos vão tendo fazer sua parte para dar um pouco de alegria, digamos, competitiva a esses abnegados seguidores. No final, a equipe venceu o Volta Redonda por 1 a 0, conquistando a segunda vitória no grupo para garantir a classificação antecipada aos mata-matas. Pela primeira rodada haviam derrotado o Santo André com mais facilidade.

"Para dizer a verdade, o que me dá mais ânimo é ver esse time e os garotos da base. Mais do que o profissional", disse ao mycujoo Luiz Mosés da Silva Filho, 36, que foi ao estádio acompanhado por mulher, filho e filha. O garoto, Gabriel, aliás, está prestes a ingressar no time sub-15 da Lusa.

Luiz é imigrante de segunda geração. Seu pai veio de um vilarejo ao Norte de Portugal. Faz parte do grupo de torcedores resignados diante do momento do clube. O time hoje está fora do Brasileirão por completo: não vai disputar nem mesmo a Série D. Em São Paulo, tem de se conformar com a A2.

Dois golpes

Na cabeça do torcedor da Lusa, dois episódios são proeminentes para explicar a derrocada do clube:

-a polêmica atuação do árbitro argentino Javier Castrilli pela semifinal do Paulistão 1998, contra o Corinthians, especialmente pela marcação de um pênalti para o adversário no último minuto

-mas principalmente o rebaixamento em 2013, quando a escalação irregular do meia Héverton resultou na perda de pontos e a queda no tapetão. Foi um duro golpe do qual ainda não se recuperaram, também um reflexo de sucessivas gestões temerárias, para dizer o mínimo.

Portuguesa Santista fans watching their team playing at Copinha 2019

É verdade que a Portuguesa não tem muitos títulos expressivos. Mas foram várias as suas gerações que entraram em campo para jogar, no mínimo, de igual para igual com grandes esquadrões brasileiros. Sua base é profícua na produção de talentos. Pensando em Seleção Brasileira neste século, o ex-lateral e meio-campista Zé Roberto foi o exemplo mais recente.

Mas o português José Nunes, 81, pode falar de muitos outros jogadores. Ele chegou ao Brasil nos anos 1950, vindo da Ilha da Madeira, como torcedor do Sporting. Rapidamente encontrou no Canindé um lugar para aconchego e diversão. Muita diversão, no caso.

"Encontrei um time que chegou a ter mais de meia Seleção em campo", disse, citando gente como o legendário Julinho Botelho, Brandãozinho, Pinga, entre outros. "Hoje vejo a Portuguesa em seu pior momento. Talvez não se recupere mais."

Ainda é casa

Ainda assim, o senhor Nunes, que carrega na carteira três carteirinhas com menção a vínculos com a Portuguesa, sempre dá um jeito de deslocar da Zona Sul de São Paulo para a Norte com assídua frequência, não importando a carência de resultados. Na partida contra o Volta Redonda, estava acompanhado pelas irmãs Maria Vera, 83, e Alice, 88, e sobrinhos.

Ele teve a gentileza de falar com a reportagem com o segundo tempo em andamento. Aqui o mycujoo até mesmo faz seu mea culpa por ter desviado a atenção do torcedor no momento em que o camisa 6 Rickson Martins dos Santos fez um improvável gol de falta para definir a vitória do time. Daqueles lances sobre o qual você não sabe o quão consciente foi, à la Ronaldinho na Copa de 2002.

Obviamente, o senhor Nunes nos deixou de lado, se levantou, aplaudiu, comemorou com as irmãs e começou a cantar junto com a arquibancada. Era um momento de euforia muito bem-vinda.

No decorrer da partida, porém, parecia mais animado em ver crianças e famílias ao seu redor do que com os lances dentro de campo, a despeito da boa campanha da Lusinha. "Está vendo o tamanho dessas coisinhas (apontando para bebês)? Somos todos uma família. Isso é só no Canindé", disse. A sensação que passa? Que ele quer aproveitar tudo isso enquanto dure.

É aí que você olha para aquelas crianças, para o futuro atleta sub-15 Gabriel, filho do Luiz Moisés, e, por fim, para os demais garotos jogadores em campo e pensa se, no futuro, todos poderão seguir desfrutando desse ambiente. Estando a Portuguesa de volta ao lugar que lhe cabe ou não.