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Nem foi tempo perdido

O Volta Redonda faz sua melhor campanha na história da Copinha. Uma recompensa para muitos de seus jogadores que, em meio a típicas dificuldades do futebol brasileiro afastado das capitais, ficaram praticamente um ano sem disputar competições oficiais

Volta Redonda celebrating after beating Portuguesa at Copinha 2019

Giancarlo Giampietro
Em São Paulo

Dois anos antes de levarem o Volta Redonda a sua melhor campanha pela Copinha, muitos dos jogadores do clube estavam parados. Ou melhor, nem tão parados assim: eles até treinaram muito, mas o problema é que não conseguiam encontrar campeonatos para jogar.

Explicando: não é por que não tinham condições técnicas. É que o clube, com orçamento apertado, não disputa todas as competições da base. Então, quando entraram no primeiro ano de juvenil, a prioridade era da turma nascida em 2000.

Para um garoto como o meia Marcos Vinícius, de 2001, restou aproveitar como dava os treinos, separado dos times em competição. Uma imagem reforçava esse isolamento dos jogos: ele e seus companheiros usavam um de coletes cinzas que simplesmente fugia ao padrão do clube, que costuma distribuir vestimentas amarelas para seus atletas.

Agora pensem o seguinte: se há vários profissionais que, mesmo bem remunerados, reclamam de treinadores e dirigentes quando estão no banco, imagine a cabeça de jogadores de 16, 17 anos, que nem mesmo podem andar no no ônibus da delegação?

"Foi algo bastante difícil para muitos dos nossos jogadores", disse ao mycujoo Marcos Vinícius, que participou da jogada que resultou no gol da vitória por 1 a 0 sobre a Portuguesa, no Canindé, na segunda-feira (14). O time voltou a campo e superou o Atlético Mineiro por 2 a 0 nesta quarta (16). "Continuamos treinando firme, batalhando, comendo grama."

"Eles não desistiram. Agora estão dando um recado, representando a cidade, que é o que nos dá força para seguir brigando. É uma história linda a deles", diz o técnico Neto Colucci, ele próprio que no ano passado foi liberado para dirigir o Pérolas Negras na Série B2 fluminense, até por não haver time local mais para dirigir, já ciente de que voltaria para trabalhar na Copinha.

Desenferrujar

A cidade de Volta Redonda está distante 128km do Rio. Para o as padrões brasileiros, não é a maior caminhada. Mas gera custo. O deslocamento de outros times do estado é bem menor. Por isso a necessidade de escolher bem o que disputar.

No ano passado, os meninos tiveram sua primeira chance pelo Campeonato Carioca Sub-17 – perceba que, hoje, chegando aos 18, ainda estão bem abaixo da média da Copinha em idade. O quarteto Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco foi às semifinais, como esperado.

Num torneio paralelo, de qualquer maneira, o Volta Redonda terminou como o melhor do restante, ganhando a Taça Rio. “Acabou sendo um ano perfeito e subimos com moral para o sub-20”, disse Marcos Vinícius.

Volta Redonda in the locker room after the game against Portuguesa at Copinha 2019

Pela Copinha, é verdade que o time não havia enfrentado até agora a concorrência mais difícil. Mas antes de eliminar o Galo, deixou pelo caminho clubes que estão na Séries A e B nacionais, como Goiás e Paraná respectivamente, além de ter despachado a Portuguesa na casa do adversário.

O “Voltaço” tem se mostrado um dos conjuntos mais consistentes do torneio, especialmente na defesa. “Em cinco jogos, só levamos dois gols. Ambos foram de bola parada”, lembrou o técnico Colucci.

Essa solidez deve deixar futuros oponentes. Como o próprio treinador observou, para eliminar a Lusa, a equipe nem mesmo fez seu melhor jogo. "Foi uma partida muito ruim tecnicamente, mas defensivamente a vontade e a determinação sobraram. Vem uma sensação de dever cumprido", disse Colucci, também lembrando que sua equipe teve de fazer mais de oito amistosos antes da Copinha, só para ganhar ritmo de jogo.

É nessa hora que seus atletas podem olhar no retrovisor e entender que o ano fora de competição nem foi tempo perdido. "Ficávamos treinando, às 8h da manhã, separados, sem competir. Mas, quando subimos, abraçamos nossa chance. Tudo foi dando certo", disse Marcos Vinícius. "Valeu a pena usar aquele colete cinza."

Fotos: Volta Redonda