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Audácia para jogar

Em 2016, o Audax sacudiu o Paulistão com um futebol ousado, fora dos padrões nacionais. Hoje o time profissional está na A3, mas não importa: na Copinha, ou desde o sub-11, o clube mantém sua metodologia de trabalho para seguir desafiando os gigantes

The penalty-shoot-outs during the Copinha 2019 game between Audax and Taboao

Giancarlo Giampietro
Em Osasco

Imagine a cena: uma partida sub-11 qualquer. Sub-11! E lá está o Audax tentando fazer um jogo um tanto estranho para a maioria do público – e crítica – brasileiros. A bola saindo pelo chão, de pé em pé, goleiros e zagueiros tocando. Aplausos da arquibancada? Nada, e não só pelo fato de que não havia tanta torcida assim, em geral, presente.

"É só depois do sub-15 que começa a ter um pouquinho mais. Mas lembro que no 11, no 13, era muita gritaria por parte dos pais, assustados: 'O que é isso?!'", disse ao mycujoo o técnico Vinícius dos Santos, do Audax. "Mas os garotos conseguiam exercer por que treinavam. E a diretoria sempre nos motivou para isso."

Essa metodologia agora vai desafiar o Fluminense pela quarta fase da Copinha nesta segunda, dia 14, em Osasco. O mesmo Fluminense que o time derrotou por 2 a 0 na fase de grupos, com autoridade e, principalmente, espetáculo.

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"Recebemos mensagem de elogios do Brasil inteiro, falando de nosso estilo de jogo", afirmou, pouco depois de uma classificação sofrida no sábado dia 12 contra o Taboão da Serra, nos pênaltis.

Na realidade do futebol brasileiro, aqui há dois pontos incomuns:

-a valorização da posse de bola e agressividade num país em que, internamente, o estilo reativo, o famoso “fechar-a-casinha-e-armar-contra-ataque”, tem sido predominante;

-essa história de Vinícius progredir de categoria em categoria, do sub-11 ao sub-20 da Copinha, aplicando um mesmo plano de jogo; Cucato, o goleiro da Copinha, por exemplo, trabalha com ele desde o sub-12;

Audax during their Copinha 2019 game against Taboao

Mas assim vai em frente o Audax, não importando que, depois da glória, ou quase, de 2016, esteja hoje disputando no profissional apenas a Série A3 do Paulistão. Três anos atrás, sob o comando de Fernando Diniz, o time deu “olé” em gigantes como São Paulo e Corinthians e exigiu o máximo do Santos na final. Ficou com o vice, mas saiu como a história daquele campeonato.

Outras aventuras

Diniz deixou o clube em busca de outras aventuras. Coincidentemente, hoje está no Fluminense. Se observou a derrota dos garotos de Xerém para Audax, pôde ver um legado de seu trabalho ainda em prática.

Os elogios recebidos foram mais que merecidos. A equipe de Osasco deu um baile, valorizando o futebol de jogadores como o polivalente meia Iago, o lateral direito Jonathan, o volante Cruz, o centroavante Ramires, entre outros.

Por outro lado, o sucesso contra um time do porte do Flu também pode ter mostrado a Vinícius o quão crus são seus atletas em outro aspecto. "São garotos ainda, né? Então deslumbram muito. Pelo fato de terem ganhado de uma equipe como o Fluminense e ter feito uma boa partida", disse o treinador.

Contra o Taboão, o Audax não conseguiu aplicar muito do que tem treinado desde cedo. Havia algo de planejado nisso. Vinícius sabia que o adversário havia feio profundo estudo sobre seu sistema e decidiu fazer ajustes, que não foram bem aplicados. Por pouco o clube que avançou aos mata-matas com 100% de aproveitamento não caiu cedo nos mata-matas.

"Eu tinha preocupação muito grande. Senti um clima muito ameno no grupo. O Taboão é muito aguerrido, e até comentei com jogadores e treinadores deles que mereciam se classificar, por terem jogado melhor", disse.

Caminho mais longo

Ver o sistema emperrar não é algo a que Vinícius esteja acostumado em seu trabalho. Não é uma questão de invencibilidade, diga-se. O clube é competitivo na base, mas não é um papa-títulos, como Palmeiras e São Paulo. Mas também é verdade que, na hora de captar adolescentes, o Audax também sai em larga desvantagem.

Para competir com os gigantes, de qualquer forma, não há atalhos. Pelo contrário: o clube investe num caminho mais longo – trabalhando para que até o goleiro possa ser um armador (e é para isso que eles fazem treinos como atletas de linha desde muito cedo, aliás).

"Existe uma metodologia que passa por todas as categorias, de ter a posse e outros conceitos, e isso a gente insere desde que são pequenos. Não é uma coisa que é feita de uma noite para a outra. Tem de insistir, ter muita paciência principalmente."

Foi difícil para o treinador demonstrar essa paciência na primeira rodada do mata-mata. Seu time pouco arriscou, falhou em passes básicos e parecia estar toda hora com posicionamento equivocado, levando em conta as broncas do treinador fora de campo. Na hora dos pênaltis, então, ele andava de um lado para o outro na área técnica, sem nem olhar as cobranças direito. Naquela tarde, seu treinador se juntou a uma torcida tensa. Quem mandou não fazer diferente?

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